quinta-feira, 27 de março de 2008

Pensando que quem decide sou eu e A ilusao da liberdade

Estou lendo tanto que não senti a necessidade de escrever. Hoje é quinta-feira e estou entrando no quarto livro da semana.
Um livro funciona como uma passagem pra outro mundo, desde sempre me transportou a outras realidades, e mesmo depois que a viagem acaba ficam as ´vivencias´.

Eu escrevi e postei, sem dar tempo de amadurecer as idéias. Relendo os outros posts senti o desconforto da acidez caustica. Certamente não é fácil estar fora do seu país.
Para aguentar essa dificuldade, foi que adotei a estratégia de viver um dia de cada vez, mas é preciso segui-la.
Estou contando mas nao quero ficar remoendo antigas dores, uma vez que isso não me cura os males. É apenas um inútil re-sofrer.
Analisando os fatos, na realidade, tenho me aplicado em invocar os males vividos. Com isso giro sem sair do lugar um desperdício de tempo e o pior de tudo, um imenso desgaste emocional. Solenemente me prometo hoje esforçar-me em tornar suportável este presente infeliz.
E que Deus me ajude a manter de pé essa promessa.

Quem é que não olha para a própria vida com olhos críticos?
Pra mim era corriqueiro ouvir (e concordar plenamente) frases como: Esse emprego não presta, Este salário não banca o estilo de vida que mereço, O nível desta faculdade não é lá essas coisas, Não tenho a vida que pedi a Deus, Isso é uma exploraçao! etc
Mas é quando começa a auto piedade sem uma reação é que oficialmente o desastre acontece.
Quando isso ocorre, ainda que vc esteja trabalhando numa grande empresa não enxerga as oportunidades de crescimento, não percebe que o seu salário é um pouquinho acima da média do mercado, que estar na faculdade é um grande privilégio ...
Quando nos submetemos a pressão do meio, não fica muito claro pra nós que embora realmente exista a pressão, existe também a submissão, e que esta, veio de dentro.

Vida de imigrante é uma constante pressao. Hoje tomei a decisão de não submergir sem briga.
Estou ilegal aqui. Trabalhando e esperando que saia meu documento de legalizaçao no país. Em troca desse documento, fico trancada com uma senhora mentalmente desequilibrada, que não obstante a doença, é muito inteligente. Ela em seus momentos de sanidade é uma lady tem fobia de estar só e crises de angustias, nos momentos críticos - infelizmente a maior parte do tempo - tem terríveis ataques de fúria, com uma vulgaridade e crueldade de que só os loucos são capazes.
Mas o que me afeta profundamente são as noites insones. Enquanto ela passeia pela casa madrugada afora arquitetando planos de fuga, eu velo.
Não é um trabalho braçal, mas emocionalmente hercúleo.
Quando consiguimos superar suas crises eu estou tao cansada quanto um ajudante de pedreiro em seu primeiro dia de trabalho. Me doem todos os músculos. Meu corpo está tremendo como se avesse feito um grande esforço físico. Minha cabeça invariavelmente está explodindo e eu não sei mais o que estou fazendo.

Porém meus patroes que nao aparecem aqui e que preferem fazer de conta que está tudo bem agem com a seguinte linha de raciocínio: uma vez (mal) pagada devo cumprir meu dever que é o de velar.
E lembrando dos meus deveres eles esquecem-se dos seus.
Legalmente uma acompanhante (seja ela de idosos, de crianças ou simplesmente uma doméstica fixa) tem direito a 36 horas semanais de folga (um dia inteiro e mais meio dia) além dos feriados nacionais em repouso completo.
Eu porém, sem permissão legal de estar no país devo estar aqui toda a semana e tirar 12 horas de folga semanais divididas em dias e horários que forem conveniente família da doente. E não me venha com essa historia de feriado... Ano novo é um dia como outro qualquer...

Muita gente acha que está preparado, que essa coisa se supera fácil.
Tente você: Fique a semana toda trancado numa casa – não saia nem pra jogar o lixo fora – esteja sem alguem com quem conversar racionalmente. Assista a televisão trocando os canais a cada 5 minutos. Só ouça música via fone de ouvido, se for ler interrompa-se a cada 2 páginas, levante responda a qualquer pergunta sem nexo, e mesmo quando for ao banheiro peça a alguem que fique batendo desesperadamente na porta perguntando o que é que está acontecendo aí dentro.
A noite nao durma. Levante-se a casa 2 horas ao som de uma campainha estridente, para ageitar as cobertas que escorregou da senhora que poderia te-las puxado sozinha, uma vez que embora a cabeça esteja falhando o corpo funciona mais que bem..

Depois disto saia de folga um dia. Cansada insone e se sentindo só. Saia e fique fora por 4 míseras horas. Mas faça isso num horário em que as poucas pessoas que vc conhece estão trabalhando.
Não saia num horário que tenha cinema, nem num horário em que o namorado esteja disponível. Se vc for mulher tente comprar alguma coisa como um vestido, tente conhecer alguem, fazer amigos.
Existem apenas 4 horas.

Continuando a experiencia prove um dia sair pra jogar o lixo fora, e quando tentar voltar imagine que encontrou a porta fechada e alguem que diz: Vá dar uma volta e retorne daqui a 4 horas. Tire sua folga agora...
Faça de conta que vc estava ansiando por esta folga a semana toda e que enfim havia conseguido combinar um sorvete com alguem (pois isso é o máximo que seu horário permite) e essa folga que seria amanhã, assim sem mais nem menos, é antecipada pra hoje. E que vc está na rua sem bolsa, mal arrumada, sem dinheiro sem celular...

Se vc conseguiu fazer essa experiencia vai entender o que é cansaço mental.

Eu quero sim estar legal aqui, mas decididamente é um preço muito caro. E me está fazendo tanto estrago que tenho minhas dúvidas sobre se vale a pena pagar.


O simples fato de pensar nisto e estar decidida a dizer basta a tudo isso dá uma tremendo bem estar
Hoje é o dia.
Esta não é uma decisão nova, mas acontece que sempre sucumbe quando penso em todas as probabilidades.
Para evitar isto não vou pensar em mais nada. Exceto no fato que esta é uma situaçao insuportável. E vou aproveitar a força do desespero de hoje...

Hasta la vista!

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