terça-feira, 11 de março de 2008

Bicho de Zoológico

Hoje o player da Rádio MPB FM esta funcionando. Ouvir musica me faz infinitamente mais feliz,
Quem é que não viaja ouvindo música.
Esquece da vida,
ou lembra da vida,
ou é capaz de enxergar outras coisas embalados pelo som...
Escutando a Gal cantar Chico Buarque consegui sorrir dos relacionamentos homem nativo X mulher estrangeira observo AQUI.
Eles parecem adorar a prostituta do Chico. E te farei, vaidoso, supor que és o maior e que me possuis...
Engraçado ser preta (Quando cheguei AQUI era verão, então a minha cor não era esse marrom desbotado) e ter os olhos de toda uma cidade voltados pra cor da minha pele.
Me sentia observada por toda parte. Primeiro achei que intrigava, depois achei que agradava, agora eu tenho a certeza que aquilo que agrada a eles não agrada a mim. E ter a certeza disso me faz odiá-los.
Sabemos que sentimentos intensos sao sujeitos a reciprocidade, odiar é ser odiado.
Mas não consigo evitar: Não suporto que me olhem, dizendo com o olhar: hum mais uma puta brasileira, carne barata.
Primeiro eu fui murchando que nem planta sem água. Encolhendo sob os olhares. Não sabia onde me enfiar. Cmecei a me comportar exatamente como uma cadela com medo que poe o rabo entre as pernas.
Depois de ter perdido a luz dos olhos foi um susto nao reconhecer a minha casca num espelho toda embolada, amarrotada feito uma bola de papel. Iniciei a briga para me reesticar.
Numa clara forçaçao de barra passei a andar na rua mais empinada do que o normal. A testa erguida, mas isso parecia atiça-los ainda mais - além de me dar uma puta dor nas costas.
Então eu ajuntei ao empinamento o encarar feio. Sustento a olhada. Levanto o nariz e enrugo os sobrolhos. Pronta pra agredir. Adotei uma atitude de ataque. Minha cara feia quer dizer: Vai falar alguma gracinha?
E agora os poucos que me olham de cima a baixo encontram no meio do caminho a pergunta pronta em gestos: Tá olhando o que, caralho? (AQUI eles tem um gesto específico que substitui a pergunta falada)
Meu Deus!
Que vergonha. Eu que na universidade me apaixonei por sociologia e antropologia.
Que olhava a marginalidade com a curiosidade de um cientista que observa as cobaias no tubo de ensaio.
Tendo desejos quase incontroláveis de cometer um crime.
ONDE é eu vou parar? No que é que estou me transformando?
Em apenas 7 meses..
Lembro de quando cheguei. E do verão e de como eu os achei simpáticos.
Embalada pela ilusao. Nao sabia que era somente por ser verão e que aquele todos aqueles personagens não eram eles. E eu fui razoavelmente feliz uma vez que havia o sol.
Até que tudo voltou ao normal.
Ou seja, um frio desconsolador e eles frios desconsolados.
Cristo, quando penso que atrás de mim está vindo uma outra, com as mesmas motivações que as minhas, com a mesma inocência que eu tinha, eu fico com dó. Especialmente por não poder falar nada.
Ela até me pergunta, mas nao quer ouvir, e eu nao posso soltar o verbo. Como é que eu vou dizer a ela não faça isso menina.
Quem iria querer um palpite desse?
Agente só ouve aquilo que quer escutar.
Quem sabe não existam outros imigrantes morrendo de felicidade AQUI, e ela venha fazer parte deste grupo. Cada um com suas experiencias pessoais.

O que me salva os dias é a musica. Hoje foi junçao perfeita da voz da Gal com a poesia do Chico...

Um comentário:

Chandra Kali disse...

Oi, fofa! :)

Eu sei bem o que vc está passando, porque apesar de ser branca de olho azul eu sou sempre uma extra-comunitaria. :/

O segredo é não se deixar abater, cultivar tudo aquilo que vc tem de bom e abrir a guarda, só um pouquinho. O defeito maior do italiano é aquele de desconfiar do que é diferente. Vc tem que mostrar que ser diferente é a melhor coisa desse mundo, e que eles só têm a ganhar em te aceitar.

Um beijão enorme, tesouro.