segunda-feira, 7 de abril de 2008

Tesouro perdido



É muito comum um odor me despertar a lembrança de um momento, de algo ou alguém.
Jean Paul Guerlain dizia que o perfume é a forma mais intensa de recordar. A mais intensa não sei. Certo que possuo uma memória muito olfativa, mas já tive também fortes experiencias da memória visual. Essa sensação de estar revivendo algo quando encontro muitas semelhanças em num lugar ou numa situação que embora novas, me confundem com uns flashbacks. O que alguns chamam "déjà-vu".
Os cheiros jamais me confundem. Quando sinto novamente um cheiro lembro exatamente a situação vivida anteriormente.
Por exemplo, cada casa tem um cheiro. Creio não ser possível sentir o cheiro da própria casa, eu pelo menos nunca senti o cheiro da minha... Mas quando entro na casa de alguém o cheiro é a primeira coisa que tomo consciência.
Experimente inspirar profundamente quando entrar pela primeira vez na casa alheia. Cheire a roupa de alguem que não vive na sua casa. [Atenção!!] não faça isso se vc mora Aqui, pois os riscos vão desde uma morte por asfixia devido aos fortes odores nauseantes a uma simples infecção respiratória.
Mas ainda sobre odores... Lembro o perfume que usava quando estava com meu primeiro namoradinho, mas não lembro a cor dos olhos dele, não tenho a menor idéia das roupas que agente usava, ou dos lugares que freqüentávamos. O único posto que me ficou na memória foi uma pizzaria, não exatamente A pizzaria, mas o cheiro dela, um cheiro de leite e queijo, do fermento que eles usavam na massa, do forno...
Esses dias me bateu uma saudade enorme de não sentir os cheiros. Ou seja de me sentir em casa. Vivo numa casa que não é a minha, durmo em um quarto que não é o meu, sinto muita falta das meus pertences. De tocar minhas coisas e despertar o pensamento de forma tátil....
Muitas coisas podem fazer de um lugar a sua casa. Quando viajei sabia que não tornaria a casa tao cedo. Por isso, sacrificando espaço trouxe comigo uma caixa onde guardava alguns objetos que eram tesouros sentimentais. Nada que tivesse utilidade prática, porém indispensáveis como paliativo das saudades que sabidamente previa.
Das tantas coisas posso citar meu primeiro livrinho, que me recordava o orgulho de ter aprendido a ler!
Ou o ´presente´ do dia das mães feito pela professora da escola. Um presente com uma história especial: Eu morava com minha avó em outra cidade, e todo ano quando chegava o dia das mães me sentia constrangida a dar o presente da mamãe para minha avó, meu coração queria guarda-los para entrega-lo a quem de direito numa das poucas visitas que minha mãe podia fazer. Aquele foi o primeiro presentinho que eu tive coragem de negar a minha avó... E apesar de ter obedecido ao meu coração, essa escolha gerou um grande mal estar. Quando emfim fui morar com minha mãe e encontrei o objeto em meio aos pertences dela, me senti recompensada por todo deságio que a minha escolha causou.
Na caixa havia ainda algumas das minhas primeiras provinhas, um pé do meu primeiro sapatinho... Fotos especiais (que não estavam digitalizadas), cartas, papeizinhos , conchinhas, bilhetes, caco de vidro...
Tinha também uma pedra redonda de rio que levei comigo quando aos 8 anos me mudei de cidade. Não era uma pedra qualquer; aquela pertencia ao rio onde ia nadar depois da escola e nos fins de semana de sol.
Aquela pedrinha me lembrava os mergulhos, e o sabor das mangas doces e frias que a correnteza trazia de margens distantes. Me recordava a sorte de encontrar de vez em quando uma pulseira ou um anel que as lavadeiras perdiam. Através daquela pedra escutava o barulho da água, que se jogava de grandes pedras com ocas cheias de larvas, formando frias cachoeiras.
Aquele mineral continha meu medo da correnteza puxar pra quele lado ali onde a água fazia nó e vinha rolando de baixo pra cima, água escura, ali não tinha fundo..
Continha também a repugnância de tomar banho onde o povo chamava remanso, lugar onde ele se fazia calmo e os bois vinham beber água entre os patos que nadavam. Eu morria de nojo da baba do boi....
Estava naquela pedra minha vontade de criança pequena querendo acompanhar os mais crescidos que mergulhavam da parte mais alta da ponte... ai que medo!
Tocar a pedra era encontrar aquele rio caudaloso e até perigoso, o rio que fazia jus ao nome pomposo: Riberão. Vendo este nome escrito me ocorre: seria esse o verdadeiro nome do rio ou uma das aglutinações roceiras tão comuns no interior? De qualquer forma a pedra pertencia ao rio da minha infância, e não naquilo que ele se transformou com o desmatamento da mata ao redor, os desvios do curso e a escassez de chuvas... Não ao rio que encontrei alguns anos depois: um pequeno riachinho quase seco correndo em meio aos pedregulhos onde a parte mais funda não me cobriria os joelhos... Nem cheguei a entrar na água.
Mas nem só de inocentes recordações era composto o tesouro: entre recortes de revista e jornais, era possível encontrar uma figurinha dos Menudos que eu marquei de batom vermelho num beijo de pré adolescente apaixonada
Tesouros infantis, adolescentes e adultos. Adulto como aquela bonequinha que uma amiga já me deu velha ... Durante o pré vestibular uma minha amiga me trouxe o seu amuleto da sorte: uma bonequinha que a tinha acompanhado ao hospital quando foi ganhar o bebe. Querida amiga, mil perdoes... não fui fiel depositária como prometi...
Meus cacarecos maravilhosos... toda vez que lembro do meu tesouro perdido me dá vontade de cometer um assassinato.
Mas como é que se perde todo de uma vez um tesouro tao grande e raro? Conto pra vocês: A inocente criatura que aqui escreve, estava tendo muitos gastos com sua tão sonhada viagem de mudança pra Cá, por isso, para economizar comprou uma passagem em uma empresa barata, semi desconhecida chamada Air Europa, que segundo a funcionária estava iniciando suas atividades no Rio de Janeiro.
Em minha viajem fui acompanhada por meu cunhado, juntos pesquisamos para encontrar um preço mais em conta. Entramos no escritório (Avenida Rio Branco, 123, sala 2011 – Centro do Rio). Compramos nossas passagens com quase 2 meses de antecedência, pagamos em dinheiro vivo sem obter um centavo de desconto, e infelizmente ignoramos o espetáculo que uma cliente estava fazendo.
A referida cliente estava aos berros indignada com o tratamento que obteve quando suas bagagens foram extraviadas. Assistimos o gerente do escritório levar ela pra uma salinha lá dentro e ouvimos cá de fora, enquanto escolhíamos nossas poltronas, os DOIS discutindo com altas vozes e baixas palavras.
Discussão tao acalorada e descabida só podia ser encarada tal como era: um sinal de alerta que me enviava o anjo da guarda, Eu porém resolvi ignorar. Do que, posso concluir que aquilo que me sucedeu foi em parte culpa minha:
Meu vôo saiu atrasado do Rio de Janeiro. Mais ou menos na metade da viagem descobrimos que, durante todo o vôo (de mais ou menos 10 horas) até a Espanha todas as janelas deveriam permanecer absolutamente fechadas, ou os comissários metiam a mão e puxavam a cortina, não importando se você estava olhando ou não pela . Muitos como eu tentavam curtir o sol dourando as nuvens, e não foram poucos os que quase tiveram o nariz decepado pela cortininha baixada violentamente pelos comissários de bordo.
Diante da minha cara de espanto por tal atitude e depois de quase haver perdido nariz, o comissário (que havia debruçado três cadeiras para alcançar a minha janela) disse muito mal educadamente que a luz do Sol poderia atrapalhar se os outros passageiros quisessem dormir...
OK Sempre de janelas fechadas chegamos na Espanha. Atrasados.
Depois que todos os passageiros passaram pela imigração, restavam poucos minutos para a decolagem do vôo que faria a conexão até Aqui. Não ia dar tempo.
Então avistamos um funcionário da Air Europa muito similar a um boiadeiro ajuntou todos os passageiros que pegariam a conexão (entre eles idosos e crianças, inclusive de colo) para atravessar correndo - Digo CORRENDO - todo aquele enorme aeroporto.
Aquele que for capaz, imagine a cena: um bando de gente ainda zonza da longa viagem, alguns com bolsas na mão, outros puxando suas crianças, outros capengando sob o peso da idade TODOS correndo atrás de um jovem magro que lembrava um instrutor de academia! Vamos lá gente! Por Aqui! Mais depressa! Um dois! Polichinelo (o polichinelo é exagero...)
Depois da maratona conseguimos pegar o vôo programado. Mas as malas que foram embarcadas no check in do Rio não conseguiram nos acompanhar.
Resultado: todo mundo sem bagagem quando chegou ao destino.
Tenho a impressão de que a Air Europa é empresa virtual – para não dizer fantasma. Não tem escritório em lugar nenhum. Fiquei 2 semanas sem roupas, e ninguém sabia ONDE eu deveria buscar auxílio. Não havia pessoa que pudesse explicar onde estavam as malas. Aqui ninguém se responsabilizava por nada, uma vez que era uma empresa espanhola, quem sabe eu não deveria voltar até a Espanha pra obter alguma informação.
Nos 15 dias que fiquei sem bagagem ninguém entrou em contato. Minhas malas estavam devidamente etiquetadas com as informações corretamente preenchidas, eu passei os dias ligando para a Espanha e o para o Brasil informando o local onde estava hospedada, deixando 3 telefones de contato e pagando as ligações internacionais do meu bolso, Duas vezes voltei no aeroporto procurando as malas (Um galpão com um zilhao de malas extraviadas) Gastei €50 de combustível a cada viagem que fiz até o aeroporto. Continuei a buscar informações por telefone até que o Gentil senhor Fernando (que se identificou como o gerente do escritório da Air Europa onde comprei as passagens e tao sem informações quanto eu), me disse que: Eles não tinham nada com isso. Que eles apenas vendiam a passagem que não tinha nada a ver com a bagagem. Que eu acionasse a empresa problema meu! Tudo isso aos gritos numa ligação internacional – repito - paga pela idiota aqui.
Quando parte da bagagem chegou verifiquei que estava faltando uma mala que até hoje não apareceu.
Na mala perdida entre outras coisas estava a minha caixinha dos tesouros .
A saga das malas continuou: Onde está a mala? Onde está, onde não está, ao final de um mês me disseram que tinha sido queimada. (?)
QUEIMADA!!!!!
Todo aquela coleção de recordações que juntei por 28 anos.
E o pior de tudo isso é que não dá pra recomeçar. Conforme os anos foram avançando foi ficando cada vez mais difícil encontrar objetos dignos de irem pra caixinha.. E eu nunca mais vou me apaixonar perdidamente pelo Robby...

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